quarta-feira, 6 de maio de 2015

Buraco De Verme



Sento-me, espero, olho a parede e passado algum tempo, vejo-me,
A olhar outra parede, com outro vazio nas mãos, outros caminhos
Com a poeira ainda assente, mais chaves no bolso, que nunca cheguei
A saber o que abriam, no quarto ao lado a estudante polaca parou de gemer,
Agora fala com o seu amigo espanhol, disse uma noite que eu não a conseguiria
Acompanhar a beber, se calhar agora não teria razão, entre uma foda e outra,
Escrevo mais um poema, é tão difícil rimar enquanto os outros vivem,
É ridículo o amor sem carne, sem cheiro a mijo, a cu, é como acordar
De um sonho e olhar para a mesa de cabeceira e lá em vez de umas cuecas,
O mesmo livro de sempre, nem uma carta a confirmar que sim, só um sonho,
Volta a dormir que ainda me apanhas, enquanto sobe a rua com o namorado barbudo,
Tanta fome e o frigorífico cheio de comida estragada trazida no fim de semana,
A amiga da polaca queria ver o meu quarto naquela noite em que acompanhei como pude,
Mas tive vergonha dos desenhos que tinha colados nas paredes, a minha fome revelada,
Ela com uma sede azul nos olhos de olhos verdes, soubesse eu ler, mas dá o destino olhos
A quem não sabe ler, ficou a parede a olhar para mim, amarela, e a estudante polaca
Recomeça naquela celebração universal ao ritmo da cabeça na parede,
Olho-me do outro lado da parede e digo-me, deixa, se não tivesses deixado de viver tanto,
Nunca lhe pegarias com a fome nos dentes e o inferno nos olhos, um anjo do apocalipse,
Deixa, apaga a luz, terás amanhãs em que mal reconhecerás o teu cheiro na pele da manhã,
Terás olhos que tornarão impossível acreditar que tu o menino da tua mãe,
Beberás o sumo do agradecimento anónimo e sentirás a alma tão suja que te sentirás
Maior neste mundo de promessas esterilizadas entre paredes de quartos pequenos
Em cidades decadentes, deixa, ganharás tão bem o inferno que até os santos terão inveja.

04.05.2015

Gdansk



João Bosco da Silva

segunda-feira, 23 de março de 2015

Ode à Adolescência

para JBS,

hoje a tecnologia respira-nos a presença,
a loucura ao lume
numa parte incerta deste silêncio transnacional
onde o nosso diálogo é contínuo.
dantes, o corpete cor de vinho e o vinho como um rumor,
os pulmões queimavam já os cigarros precoces.
dantes, o teatro da tragédia e os palcos inacessíveis.
digamos: caí na adolescência como numa emboscada,
uma sobrevivência serena junto a um existencialismo incansável;
como um Nietzsche convocado no cemitério
ou Opeth no hardclub com o resto dos poetas.
uma rosa a Baudelaire e outra a Sartre
como prioridade na viagem de família a Paris.
todas as manhãs eram a continuação da noite
e todas as noites, minto, a tecnologia respirava presenças
já na altura.
era esta virgindade exausta que habitava o poema
inventava narrativas lubrificadas
inventava-te em lábios por estrear
queria a tua morada
sem saber se existias
e ainda assim escrevia-te, descrevia-te
e a fome sorria
enquanto alguém batia punhetas dolorosas
à custa do meu desprezo.
hoje a tecnologia respira-nos a presença
e eu na altura
a madrugada para a qual acordavas todas as manhãs.


22.03.2015

Lisboa



Sara F. Costa

Quantum Entanglement


Andava eu a tentar comer literatura francesa, existencialismo em duas frentes,
Fazer de mim um aldeão culto, que não sabe sequer quando se plantam batatas,
Desafiando professores com experiências comprovadas na cabana,
Onde ainda se podia encontrar a curiosidade dos alquimistas e o cheiro
A enxofre entranhava-se nas raízes do cabelo, e nos ossos dos animais
Encontrados mortos no monte, desistia já de encontrar a teoria de tudo,
Tinha embirrado com a matemática e via que das minhas mãos nunca
Sairia nada melhor que as punhetas que batia abençoadas pelas senhoras
Do baralho de cartas da loja dos trezentos, e tu, tu já mais poeta que eu
Alguma vez serei, tu que já sabias tocar as cordas da perversão dos
Animais que são todos os homens, eu ainda acreditava que cada batida
Me aproximava mais do inferno, recolhia dinheiro na missa,
Lia Nietzsche às escondidas em casa do padre, onde havia imensos álbuns
De música clássica e televisão por cabo, e tu a incendiar vontades
À distância, eu quanto muito, escrevia mensagens quando os meus
Amigos queriam mostrar-se românticos a quem queriam foder,
Contudo, apesar das longas tardes à beira do rio no Verão,
Na companhia do Hemingway, à noite sentava-me nas escadas
Do avô morto com os primórdios da barba molhados pelo primeiro grelo
E tu, apenas com palavras, a marcar mais fundo, que aquelas primeiras
Cuecas que despi, ainda hoje me fascina mais aquele movimento
Que a morte, a revelação, a aparição, tu, longe, latente,
Gloriosa em toda a tua inocência perversa, enfant terrible,
Ainda nos dedos o cheiro da professora da mesma escola
E nós lado a lado, com uma fome adiada, lembras-te.

21.03.2015

Turku


João Bosco da Silva