sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Uma geografia secreta

Por Nuno Júdice originalmente publicado em Revista Caliban
A partir do título do novo livro de Sara F. Costa, «O movimento impróprio do mundo», entramos num espaço que gira em torno de dois conceitos: movimentoassociado a deslocação, a viagem, e mundo relativo ao espaço em que esse movimento se dá. No entanto, se por mundo entendermos a Terra, o planeta, o movimento que logo lhe associamos é o de rotação, com a sua dupla regularidade ligada ao dia, que é a rotação do planeta sobre si, e o ano, que é a rotação da Terra à volta do Sol. Estaríamos assim perante um tópico da poesia que fala dessa dualidade nocturna e diurna, e da mudança das estações ao longo do ano. No entanto, o que poderia parecer uma associação simples e confortável para o leitor, que remeteria para o mundo clássico esta poesia, é contraditado, ou melhor, perturbado pelo adjectivo impróprio. Sara F. Costa vai, assim, rejeitar esse espaço da tradição que, pela antítese diurno-nocturno, remete para o Romantismo, e pela sazonalidade que deu origem ao mito do eterno retorno, para o Classicismo, e avança por um outro terreno em que o movimento, ou melhor, a viagem, não coincide com as referências habituais da linguagem poética.
Há muitas viagens neste livro. Podíamos falar de viagens como a que se faz ao passar/esta ponte triste/que vai dar a Setúbal (p. 7), a que leva até às placas que indicam que Figueira da Foz é mais ou menos na/mesma direcção (p. 11), a que segue o desejo taxativo do «Vou-me embora» que começa na Universidade do Minho e termina em Beijing (p. 13), a da «Modern girl» que apesar de nunca ter ido a Nova Iorque se mudou para Coimbra (p. 78), a combinação com o estudante de relações internacionais para um encontro algures entre/o Império Otomano e o Bizantino,/por volta de Agosto (p. 86), ou o poema «Shanghai» (p. 65), entre outras, ou seja, referências que se podem considerar concretas, a que se podem somar outras mais literárias quando, em Peniche, diz que podia estar em Paris (p. 35), qunado pretende levar o Tejo para a China(p. 85), ou ainda quando encontra o Husserl a jantar com o Alphonse de Lamartine (p. 73).
Este é o mundo que se encontra no título e que tanto pode fazer parte de uma realidade concreta da globalização contemporânea como, sobretudo, surgir ao longo do livro para apelar a uma pulsão de liberdade que, hoje, perdeu o sentido que teve no tempo dessa rua onde Ramos Rosa adiou o amor, e se tornou um instante de risco em que não se ama a liberdade,/bebe-se liberdade/misturada com espumante e terror («Liberdade», p. 16). É uma liberdade que absorve tanto a novilíngua dos feedstartupcliffhanger,hardclubnetworking, o uso do inglês em títulos ou citações, a presença de nomes que funcionam como fundo entre o cultural e o que poderíamos chamar intertextual, de Herberto Helder a Dante ou Rimbaud, de Nietzsche a Sartre, Kafka ou Patti Smith; e uma errância por lugares que, no entanto, são o lugar único em que a poeta se define como uma casa corpo, não passo de.
Também o amor comunga dessa liberdade em forma de errância, como se o corpo fosse apenas um lugar de passagem. É quando diz que à noite, quando o homem, regressa/ não é sói a ele que me dou mas aos quatro ou cinco a quem já/me dei antes/porque no meu útero rebentam todos os mares (p. 28) que a entidade mulher se assume como esse mundo líquido em que o canto das ondas feridas/ atravessa a existência (p. 29) até esse momento do poema «Quando eu fui morrer para o mar» (p. 72) em que a morte, ligada à água bachelardiana, se associa ao renascimento ligado ao útero: ressuscitei na mesma madrugada em que fui morrer para o mar (p. 73). Uma poética iniciática, mas uma iniciação que se verifica no espaço fechado de «O sepulcro-espelho» (p. 47) em que o Eu se contempla num processo que é descrito como o movimento impróprio do mundo, contrário à luz e à expansão, e entregue à harmonia demoníaca do teu desejo no processo de morte ritual em que o olhar narcísico e auto-destrutivo de onde nasce o prazer fundamental para esse renascimento, surgido do oximoro dessa harmonia demoníaca que se conclui no momento em que a entrega nocturna se materializa: deixa que o sepulcro te masturbe.
É portanto uma viagem que tem como território esse mundo mas em que não há um objectivo final, ligado a uma instalação definitiva, porque a vida é o nosso destino e aparentemente já chegamos/sem nunca ter partido (p. 9). Se o poema se chama «Na rua em Daugavpils», portanto longe dessa origem portuguesa entre Lisboa e o norte, ao dizer que chegou sem nunca ter partidoo que se conclui é que a viagem poética não implica uma mudança de território porque o chão em que assenta, e não se move, será o chão da linguagem, da língua, em que tudo é reconhecível e familiar, mesmo quando fisicamente se está longe. E talvez se possa aqui definir esse «movimento impróprio do mundo» como aquele que tenta afastar a poeta do seu chão, que será essa língua em que escreve, que faz parte de uma «Geografia secreta» em que a poeta usa os verbos que se apaixonam pela noite e os versos são lábios em ruína/parados na geografia secreta da pele.
Viagem entre Eros e Tanatos, o livro guia-nos por um mundo de imagens no limite da eclosão surreal, mas ao mesmo tempo nunca perdendo de vista a realidade, numa escrita que vai de encontro à pele críptica do papel, sem nunca deixar que a leitura se perca em labirintos sem sentido nem centro.
Nuno Júdice

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Ilha Em Fomes Alheias


A noite estava a queimar nos lençóis o excesso de álcool e cafeína,
No fim de contas só se estavam a justificar o coração a uns
120bpm, numa madrugada só a enrolar lençóis e confrontar paredes que aclaram,
Torna-se muito mais difícil passar o tempo, mas com uma gaja que está há mês
E meio à procura de trabalho para o noivo na ilha, o tempo voa,
Contam-se os orgasmos, é uma batalha, ainda não, pá, que queres, é a vodka,
Ou o rum, que se misturava com a areia e tornava os encontrões nas paredes
Duros, eu vou contigo até casa, abençoada, outra, sevilhana, ficou para o Natal,
De manhã era, como caralho estou aqui, nesta cama quase familiar, com lençóis
De semanas, sabe-se lá que variedade genética se poderia lá encontrar,
A luz negra neles seria um crime, e por fim, depois de o jogo estar perdido
Por muitos, sujaste-me toda, nas nádegas, pois foi, que a gaja era uma esquisita
E chupava como quem sopra numa ferida infectada e porque o grelo lhe exigia
Retribuição das avalanches que lhe derrubavam os joelhos,
O colega urso dormia, de boca cheia ou barriga juntinha às nádegas peludas de alguém,
Isto é um poema, não, é esperma seco na areia da praia ao amanhecer.

Turku

29.09.2015


João Bosco da Silva

segunda-feira, 27 de julho de 2015

(Americana)




Ardes com a mesma fúria
Dos condenados
Consomes-te em reminiscências
Custa-te romper com o cordão umbilical
Do passado
E procuras na tua pele
O cheiro que ficou dos teus pecados

Contudo és mais uma tatuagem
Apesar da fugacidade
Da tua presença em mim
Foste mais fundo do que o teu comprimento
E mesmo que seja capaz de sorrisos
Guardo em segredo
O sabor de ti que o tempo amargou

Não és tão mau quanto te pintas
Mas para a próxima
Avisa antes de entrares

B.

Ele


faço login no sono
mas o meu feed parece abandonado,
um deserto metafísico.
subitamente o teu corpo naufraga
exposto a um pudor guerreiro,
os teus poemas abertos dão lugar
às tuas pernas abertas mas ainda assim há um texto:
“Somos terra líquida, último alimento das árvores”.
fraco e inválido, o meu sangue
estremece em direção à polis
onde tudo se cria.

a minha mão apressa-se
a saciar o grito,
mas não o alcança,
em vez do meu pénis duro
tenho sangue e vísceras onde
a minha mão desata
em desespero e confusão.

a seguir estás sentada
numa cadeira prostituta,
pronta a sugar-me o mineral do corpo
quero desfazer-te pela cona
mas tu não me entendes
começas a falar nesse estrangeiro suburbano
que aprendeste na cama
com outras culturas.

eu sei que não dormes
e às vezes tenho pena
penetrava em ti o meu ofício
espancava-te as metáforas minúsculas
por onde regulas a tua existência.

se te fodia era para o teu bem
fodia-te até à vertigem.
sem nunca te conseguir saciar o medo.
também eu não durmo
porque a noite é vadia como o meu desejo.
chama-me puta,
sou a tua puta,
sozinho, não estrangeiro.

quando acordar estarás no meu feed,
de pernas fechadas
e poemas abertos
a todas as interpretações.


27.04.2015

Braga

Sara F. Costa



sexta-feira, 24 de julho de 2015

Um Nela Outro No Tapete


“I think sometimes of all good
ass
turned over to the
monsters of the
world.”

Charles Bukowski, Burning In Water Drowning In Flame


Era a segunda vez que a via, tinha uns dezanove anos e parecia ainda fascinada
Pela vida na cidade e ainda se sentia livre, tinha vindo ter ali porque sabia
Que eu lá estava, as mamas pareciam maiores do que realmente eram, é o importante,
Tinha bebido, eu mais, disse que não podia demorar porque tinha um amigo
A dormir no tapete em casa dela à espera, então tinha que me despachar,
Era difícil falar com a música, melhor, haviam mais olhos, enquanto a olhava
Nos dela ela desvia o olhar para os meu lábios e leva logo com o que pediu,
Fingiu-se surpreendida, mas confessou ser o que estava à espera, sim,
Estava a ver que nunca mais, saímos os dois do club até um beco escuro
E quase escondido, encosto-a a uma caixa de electricidade, exploro-lhe a pele,
O tamanho real das maminhas até lhe chegar com o dedo ao grelo, aí
Ela realmente se sente surpreendida, como que se lhe tivesse ligado
Um interruptor qualquer, fazes isso tão bem, deixo-a a escorrer, acredito que
Estivesse a ser sincera, meto-lhe a gaita nas mãos que ela agarra com voracidade,
Bate com força e a um ritmo perfeito, quase me faz vir contra o seu púbis
Rapado há uns dias, sei que naquele momento alguém deve estar a pensar
Em mim, ou não, sei que não tem a minha gaita na mão, também sei que há
Cães em tapetes e outros sem tanta sorte, sinto perto um gato a saltar
De um caixote do lixo, sinto o cheiro azedo do mesmo caixote, misturado
Com o aroma da cona pronta para a foda, custa-me a manter o leite
Longe dela, no hospital ali perto alguém muito verde agoniza com uma
Barriga colossal cheia de líquido, posso ser eu daqui a uns anos, foi alguém
Que me morreu na infância e com ela, aproxima a glande dos lábios
E esfrega-a neles, deixando-a lubrificada e pronta para a penetração,
Engulo em seco, lembro-me do cheiro a cera nos cemitérios e de como
É pecado pisar nas campas, então a gente começa a sair do club,
Quebrando o transe, vamos até aquele adro foder, temos que foder,
Não podemos ficar assim, apertamos as calças e então os meus dois amigos
Vêm ter comigo, bêbados, fica com os teus amigos, eu tenho que ir,
Agora já não ficas só, tenho o meu amigo em casa à espera,
Não insisti, para alguém esperar no tapete, tem que gostar mesmo
E é triste, acabei a noite de manhã numa padaria a comer pão fresco
E beber cerveja com os padeiros e os dois amigos, com os tomates inchados
E tive pena do que a esperou deitado no tapete, que era amigo,
Espero que não tenha adormecido com fome, eu nunca mais a vi.


19.09.2014

Turku

João Bosco da Silva

terça-feira, 14 de julho de 2015

viajar-te

acredito que se viajar o tempo suficiente
chego às noites onde te escondes
se esgrimir um verso tão alto como a fantasia
chego à acidez da tua língua,
se escrever como quem molha todas as arestas do corpo
danço sem morada
e sei que por esta altura
o perfume da nossa amizade engravidou a lua.

que voar é engolir-te enquanto engulo o mundo

que caminhar o tempo suficiente
me leva às ruínas onde me desejas
aos templos onde cada imagem tua é uma imagem de mim

se for livre é para me comprometer a cravar o teu rosto em cada som

para te deixar lamber
o mel que me brota dos poros
o álcool que me cresce dos sonhos
se deixar que me toques é porque quero que ouças
todos os meus medos.

Lisboa

08.07.2015

Sara F. Costa

sexta-feira, 26 de junho de 2015

O Que Os Olhos Comem Em Quartos De Hotel




Sentas-te na cama de hotel com o vestido à beira do abismo, pergunto-me se sentes
O cheiro da perdição, aproximando-se a cada centímetro de pele branca que me revelas,
Deitas-te e desvio as cortinas da janela, engulo o betão sujo da cidade para não morder
A carne em que te estás a tornar, não te quero só carne, mas a fome cresce no quarto
Pequeno do hotel barato como se um corte num dedo no ar carregado com a nossa fraqueza,
Somos amantes de fracassos, colecionadores de nomes esquecidos, tatuados pelo cheiro
De desejos anónimos, somos irmãos incestuosos à distância, dançamos embalados pela
Amizade e pelo desejo, a luz agora acende o teu cabelo e eu penso em quantas putas
Terão sido fodidas naquele quarto, estarão os lençóis tão limpos quanto a nossa fidelidade,
Escreverei este poema no duche, enquanto esfrego os tomates cheios de fracasso e
Esquecimento, a uma distância segura das pupilas que seguem cada verso, longe de nós,
Não te direi a vontade que tive nos dentes antes de a noite te levar para a tua insónia,
Nem te prometo que voltarei a desviar as cortinas, custou-me tanto não te revelar a ti,
Banhar-me na luz do teu fogo, engolir-te toda até me afogar se fosse preciso,
Mas lá está, só fodemos o que está à mão, o que se pode largar e esquecer,
Não o que já nos é sem consentimento, enquanto esfrego os tomates no duche,
É a ti que toco, perdida na cama de hotel, o medo da tua ausência nos meus dias cinzentos,
Contudo, sabes que o que os meus olhos comem, os meus dedos pouco digerem,
Se te queres poema, inscreve-te na minha pele.

Turku

26.06.2015



João Bosco da Silva